quarta-feira, 28 de abril de 2021

A freira de Blumenau. Wolf Hornke

Em fins de agosto do ano passado convidamos, eu e a Fernanda, um casal de amigos para jantar em nosso apartamento para depois assistirmos juntos um filme na Netflix. A noite acabou tornando-se fria e chuvosa, ideal para ficar em casa.

O jantar que preparamos a quatro mãos, eu na carne e no molho, a Fernanda nos complementos e na salada, foi muito apreciado e elogiado pela Andrea e pelo Hugo, nossos amigos, especialmente depois do consumo de duas garrafas de Merlot, Concha y Toro. Quando já estávamos quase prontos para nos mudarmos para o sofá e as poltronas para escolher um filme, toca a campainha e eu – meio a contragosto – fui lá ver quem era.

– No mínimo é aquela chata do terceiro andar que quer vender a rifa pra excursão do filho – pensei – Ou então o imbecil do síndico, para pedir nosso voto para a chapa dele mais uma vez. Isso são horas para perturbar os vizinhos?” pensei comigo e fiquei com a cara mais irritada de que era capaz ao abrir a porta.

Deparo-me com Dieter: velho companheiro dos tempos de movimento estudantil que eu havia reencontrado havia uma semana, ao acaso, no centro de São Paulo, depois de 40 anos de não mais ver. O espanto não chegou a suplantar eficientemente a irritação na minha cara, de modo que consegui ofender o amigo duas vezes, uma pelo espanto, outra pela raiva. Percebo que, ao pedir desculpas consternadas por seu repentino aparecimento, Dieter faz um movimento quase imperceptível de fuga, como se fosse virar o corpo em direção aos elevadores. Mas consegui controlar-me e impedir que se esvanecesse pedindo desculpas por minha vez, contando sobre quem eu esperava encontrar na porta àquela hora, enaltecendo que suas visitas jamais seriam inoportunas e convidando-o com o calor possível naquelas circunstâncias a entrar e conhecer a Fernanda e nossos amigos.

Quebrou logo o gelo admitindo a inconveniência de aparecer àquela hora sem avisar e relatando que sua mulher tinha viajado com os três filhos, dois meninos e uma menina, para visitar parentes em Minas, de modo que estava sozinho na casa deles em Grajaú, periferia sul da cidade. Tivera repentinamente um acesso de solidão e uma vontade enorme de lembrar dos velhos tempos de 68. Assim resolveu fazer uma visita de surpresa ao amigo a quem reencontrara por mero acaso na semana anterior o que trouxera a sua memória muitas lembranças daqueles tempos.

Assim logo ganhou a simpatia de todos e começamos principalmente ele e eu a relembrar antigas aventuras e peripécias do movimento estudantil. A verdade é que ele tinha muito mais a contar do que eu, e foi sendo requisitado cada vez mais a contar suas próprias vivências. Foi aí que ele perguntou se queríamos ouvir uma história que lhe parecia sumamente interessante, que se passou naquela época.

Claro, todos queriam ouvir a história, mas não sem que antes fosse aberta uma nova garrafa de Concha Y Toro, desta vez um Cabernet. Só me resta aqui tentar reproduzir a história aqui de memória, da melhor forma que posso, da maneira como foi contada:

 

Esta história se passou em 19 e 20 de abril de 1969 e é totalmente verdadeira.

Maria Antônia era socióloga recém-formada. Firme nas lutas sociais, participava de todas as reuniões da categoria e do sindicato dos professores. Recém-formada tinha conseguido um emprego de professora no Colégio Maria Imaculada lá na Vila Mariana.

Odiava depender de qualquer ajuda além de sua própria competência para conseguir um emprego, tinha até ameaçado sua mãe de desamor eterno se ela se envolvesse. Mas, dizem que nem Jesus segura as mães e quem era Maria Antônia para segurar a velha carola autenticamente mineira, dos joelhos eternamente inchados e meio descascando velhas crostas, meio formando novas em consequência de seu rezar apaixonado e contínuo, de joelhos, pelo bem de suas duas filhas e da felicidade do mundo em geral. Mas, quando a Madre superiora do convento, diretora do Colégio, lhe ligou pessoalmente pedindo uma entrevista, mencionando de passagem a santa de sua mãe, não teve como desconversar, acabou aceitando o emprego.

O pai, camponês da Ligúria, tinha sido enfiado junto com os pais dele num dos últimos navios de fugidos do fascismo em 1923, mas não entendera muita coisa. Confundiu tudo e achava que sua tarefa era difundir o fascio no novo mundo. Não se atrapalhou, casou com uma carola mineira, quase tão boa como uma carola da Ligúria, estabelecendo seu negócio de marcenaria ao longo de 30 anos em Minas Gerais e sempre falando das excelências do sistema fascista a quem lhe prestasse atenção. Eis a razão por que simpatizou de imediato com o potencial genro que a filha Maria Antônia lhe apresentou: um alemão louro, jovem, de aparência simples e honesta.

Foi assim que entrei nessa família. A mãe carola logo começou a me cevar como a uma tilápia na engorda. Aos sábados preparava uma feijoada maravilhosa, coisa de louco, saborosa, cozida com os melhores pertences e alguns pedaços de laranja, com a couve e o molho de tempero precisos, sem exageros, o arroz soltinho. Isso após uma aula de piano, de duas horas, que a Maria Antônia me ministrava nas manhãs de sábado na escolinha de música de que era sócia, não longe da casa dela, e que funcionava de segunda a sexta, ficando ociosa nos fins de semana. Eu estava perfeitamente encaçapado como diziam na roda de snooker na faculdade. Até já tinha dado a Maria Antonia um anel de noivado de ouro, fininho, é verdade, porém de 18 quilates verdadeiros, que comprara com alguma dificuldade de meus parcos vencimentos de professor particular de Inglês e em cuja face interior eu mandara gravar em letras minúsculas: Antonia & Dieter forever.

No início as aulas de piano eram sérias e produtivas – eu até já tocava uma ou duas das pecinhas mais simples do livro de exercícios –mas com o passar do tempo meu talento musical começou a definhar. Cedia lugar a outros interesses menos sublimes. Beethoven substituindo Mozart. Beijos e carícias apaixonadas dificultando a pureza da linguagem musical.

Maria Antônia era uma morena bonita, corpo firme e pernas longas, de 25 anos, três anos mais velha do que eu. Apenas seu nariz adunco e a testa um pouco larga demais impediam que fosse considerada uma verdadeira beldade. Inicialmente devido a sua educação religiosa fortemente autoritária e depois, quando passou a integrar a ala mais progressista da igreja, devido a sua dedicação quase exclusiva à música e aos estudos, Antônia carecia de experiência no amor. Namoricos inocentes com colegas de escola, um grande amor romântico, não correspondido, pelo professor de História, algumas trocas de cartas insinuantes com rapazes solitários que publicavam anúncios em revistas de fofocas editadas especialmente para corações solitários, enfim, nada que colocasse em xeque sua condição de marinheira de primeira viagem.

Eis que aparece um alemão jovem e – modéstia à parte – bonito, sensível e inteligente, desejoso de introduzir a italianinha às artes do amor. Eu que, apesar de ser mais novo e ainda ingênuo em vários sentidos, já era bastante experiente nas modalidades da paixão praticadas longe da USP, mais precisamente no quadrilátero do pecado, também chamada então de Boca do Luxo, no centro de São Paulo, onde trabalhara de garçom por quase dois anos, antes de entrar na faculdade.

O namoro foi lento, sincero e sem falsidades. Com muito carinho e conversas abundantes sobre a inutilidade da virgindade nos tempos modernos, coisa que ela partilhava até mais informada do que eu; passeios a parques e represas, apresentações populares de música clássica, filmes de arte no Cine Bijou, Teatro de Arena e Oficina, cinema , curso de economia política ministrado pelo marido de uma amiga, filósofo e diretor de empresa,  reuniões políticas e pequenas festas na casa das amigas dela e, lógico, as infalíveis feijoadas aos sábados; tudo entremeado de momentos particulares na minha edícula alugada na casa de uma família, independente e com banheiro próprio. Concertos de Mozart num toca-fitas simples, muitos beijos, e, por que não admiti-lo, amassos cada vez mais avançados, a mão procurando o caminho, deslizando carinhosamente para dentro da roupa, tateando, apertando, recuando de medo de ultrapassar os limites, voltando com todo cuidado e ... epa!! ... de repente seus olhos se fecham, seu beijo se torna quase desesperado, geme, treme, estarrece e ... aos poucos vai relaxando. E logo em seguida perde o interesse na brincadeira. Explica o movimento do concerto que está passando no toca-fitas, procura voltar aos temas do cotidiano o mais rápido possível. 

E o namoro continua, lento e cuidadoso. Para atestar a saúde sexual dos dois parceiros visita ao médico: um progressista que orienta sobre a simplicidade do ato e declara tudo azul para levantar voo.

Ela tomando pílula durante meses e a vida continuando sem novidades.

Eis que sou convidado para um baile no clube Kolping em Campo Belo, zona sul de São Paulo. Beatles num som estéreo de qualidade. Maria Antônia está deslumbrante.  Ao som de Yesterday nossos corações se fundem e sinto nitidamente que ela está avançando seu ventre de encontro a minha coxa quando dançamos agarradinhos. Despedimo-nos apressadamente dos conhecidos ao som de Hey Jude e pegamos um táxi para a casa da amiga dela que tinha reservado o quarto de hóspedes lindamente mobiliado e florido para o casal recém-casado.  Mas, após as preliminares, em que ela teve o orgasmo de sempre, a continuação foi meramente protocolar. Mais por compadecimento do que desejo, aguentou a penetração e meu próprio orgasmo me deu vontade de pedir desculpas. Nada mais de relevante aconteceu naquela noite e em várias outras que seguiram o mesmo padrão. Nem só de sexo vive um casal moderno e inteligente.

Nas feijoadas de sábado participava regularmente o irmão mais velho de Maria Antônia, Mário Belo, solteirão de 40 e tantos anos, obeso e vítima de sudorese nas extremidades. Sujeito afável, de estilo manso, adorava os alemães por seu pertencimento ao povo do seu ídolo, Adolf Hitler. E eu, como tal, era naturalmente um interlocutor privilegiado. Para desfrutar a feijoada na maior paz, eu aceitava uma cachaçazinha mineira antes e pedia outra depois, sempre ostentando o maior interesse pelas palestras do mestre.

Mário Belo era falante e bem articulado quando se tratava de seu tema preferido; era um autêntico scholar em matéria de nazismo e Hitler. Conhecia todos os passos, todos os discursos, todas a ideias sublimes do Führer, desde seu nascimento na Áustria em 1889 até seu amargo fim em 1959 quando foi soterrado por uma avalanche perto de Bariloche na Patagônia argentina.

Sabia de cor todos os mínimos detalhes da vida e da fuga de Hitler do bunker em 29 de abril de 1945, o voo periclitante com Hanna Reitsch, a aviadora heroína dos chefes nazistas, de um campinho no centro de Berlim por cima das tropas russas, até Hörsching na Áustria, depois até Barcelona na Espanha, sabia o nome do capitão do submarino U-530 que teria levado o chefe até a Argentina e até o nome dos principais gestores de seu exílio na Argentina, amparado pelo governo Peron.

Certo sábado, no início de 1969, Mário Belo, depois de tomar um ou duas mineiras a mais, fez a grande revelação: a morte do Führer em Bariloche foi apenas encenada. Na verdade, ele continuava vivinho da Silva, apenas teve que mudar de local de exílio por causa da queda do governo Peron. Agora quem estava protegendo ele era o amigo Stroessner, numa colônia alemã no Paraguai. E tem outra:

– Vocês já ouviram falar dos túneis de Blumenau?

Obviamente não tínhamos a menor ideia do que se tratava e, assim, tivemos que lhe dar luz verde para continuar:

– Os túneis originais existem há mais de 60 anos e inicialmente ligavam o mosteiro das freiras catequistas com a sacristia da Sé. Era um refúgio para as freiras em caso de invasão do mosteiro por malfeitores, mas, dizem as más vozes que, com o passar do tempo, foi servindo de ponto de encontro entre alguns freis ainda pouco convictos das virtudes do celibato com eventuais freiras já cansadas da eterna abstinência.

Acontece que em 1939 é inaugurado no centro da cidade o imponente teatro Carlos Gomes, financiado pelo governo alemão. Para inaugurá-lo é convidado o próprio Adolf Hitler, que contava com ampla simpatia na população de origem germânica da cidade e de todo o estado de Santa Catarina. Devido à situação política crítica na Europa, os construtores resolvem adotar medidas de proteção ao grande líder: criam novas rotas de fuga, ampliam e modernizam a rede de túneis com algumas estações e acomodações intermediárias, interligando vários colégios e paróquias com o Teatro, e criando uma rota de fuga para o rio Itajaí. O governo Getúlio deixou claro que não permitiria essa farra do boi em Santa Catarina, mas há quem diga que o Führer compareceu assim mesmo, extraoficialmente, reunindo os simpatizantes nazistas no auditório do Colégio Bom Jesus.

– É aí que entra o gênio do velho – disse Mário Belo... O Führer sempre considerou Santa Catarina uma fonte importantíssima para a formação de camisas-marrons. Argentina e Paraguai já estão garantidos, Colômbia e Venezuela com movimentos fortes, o Brasil é o próximo passo. Com a virada no Brasil, a América do Sul é nossa!  Podem crer: este ano o velho vai comemorar seu octogésimo aniversário nas catacumbas de Blumenau, ao lado de algumas dezenas de militantes selecionados do mundo todo. E de lá vamos sair como marimbondos de fogo num verdadeiro Blitzkrieg político e ideológico para restabelecer o Reich e incendiar o mundo.

– Discurso um tanto quanto megalomaníaco – pensei comigo... Mas ... se só um por cento disso for verdade, vai dar uma puta de uma matéria de jornal. Com isso posso até conseguir emprego no Jornal da Tarde ou na Realidade.

E assim, candidatei-me de imediato a esse encontro em Blumenau. Acenei com minha vantagem de cidadão alemão que falava as duas línguas fluentemente e poderia, por exemplo, servir de intermediário entre a futura safra de garotos marrons brasileiros e a elite dos fiéis à bandeira na antiga pátria.

Aceitaram minha candidatura um pouco antes do grande evento.

Chegado na cidade de Blumenau em bom tempo, fui levado, após a devida identificação por senha e contrassenha, diretamente à biblioteca.  Lá fomos informados, eu e mais uns 15 militantes presentes, da existência de um salão subterrâneo para 150 pessoas em que seria realizada a conferência. Num canto do escritório do diretor, escondida atrás de um painel falso, havia uma escada em caracol que descia seis metros para dentro da terra. Fomos divididos em grupos de cinco e deveríamos esperar o guia ao pé da escada para seguirmos em direção ao salão.

Quando chegou, o guia logo orientou:

– Não se preocupem, é uma reta só, sigam-me e não liguem para as saídas laterais.

 A galeria parcamente iluminada por luzes de emergência, como numa galeria de mina, era estreita, mas suficientemente alta pra deixar passar em pé uma pessoa de cada vez. Resolvi ficar no fim da fila para ter melhor controle dos acontecimentos. Peguei o primeiro desvio à direita, só para ver se havia algo diferente por aí.

Uma freira apareceu logo adiante, toda paramentada e com expressão aflita:

– Venha, frei, vamos sair desta loucura! Vamos para um lugar mais tranquilo, até essa bandalha passar.

E foi me puxando suavemente para longe da encruzilhada.

“Maria Antônia?”, perguntei, pois achara a figura da freira muito parecida com a de minha noiva: mesma altura e certa semelhança no rosto. Apenas a voz era diferente e a freira usava óculos. Mais tarde com mais luz fiquei sabendo que o cabelo dela também era diferente, bem mais claro que o da Antônia.

 “Como?” perguntou, virando-se para trás.  “Meu nome é Maria Benevides e sou do Convento das Carmelitas aqui de Blumenau”.

“Tudo bem”, respondi, “mas vou lhe chamar de Bem-vinda, se não se incomodar, pois é assim que percebo sua presença aqui neste momento.”

Depois de um caminho longo e tortuoso chegamos a um cômodo suavemente iluminado cujos móveis predominantemente em cores pastel contrastavam com a luminária e um abajur vermelhos e as molduras verde-claras de cinco quadros dispostos na parede ao lado da cama. Eram desenhos a bico de pena com motivos pios. Padres e freiras rezando, ajoelhados diante da cruz, ou olhando o pôr do sol do alto de uma montanha, ou sentados em volta de uma enorme mesa de jantar no salão de um mosteiro, etc. Aproximei-me para apreciar de perto e percebi pequenos detalhes: padres e freiras apalpando os traseiros uns dos outros enquanto rezavam ajoelhados; ou, na mesa de jantar no mosteiro, estando padres e freiras sentados em ordem alternada ficavam só com a mão esquerda sobre a mesa enquanto a direita estendia-se por baixo ao colo do vizinho ... foi aí que a irmã Bem-vinda me chamou em voz baixa: “ô frei, está tão frio hoje, venha me aquecer um pouco aqui.”  Percebi que estava nua debaixo das cobertas e os olhos mendigando por minha presença. Espantado eu disse: seja bem-vinda, ó minha noviça!

E assim teve início uma das noites de amor mais emocionantes de minha vida, com paixão desenfreada de lado a lado, alegrias explosivas, gemidos e sussurros intermináveis, até juras de amor eterno.

De madrugada, Bem-vinda levou-me até o pé da escada em caracol. Despediu-se com um longo e apaixonado beijo e saiu da minha vida para sempre. Chegando lá em cima no escritório, indaguei se o evento já havia terminado e a plantonista olhou-me de modo desconfiado, perguntando:

– Você não faz parte daquele grupo de desordeiros que tentou invadir a cidade ontem, faz?

“Não, não”, respondi, “pelo amor de Deus... eu sou apenas um jornalista católico de São Paulo que veio a convite da irmã Benevides conhecer o convento e a Biblioteca. O que aconteceu com esses desordeiros de que a Senhora falou?”

 “Bom, eu não sei se posso falar”, hesitou a irmã, “só se o senhor garantir que meu nome não vai aparecer”.

Assegurei-lhe total sigilo e ela logo desabafou:

– É que o bispo de Joinville, responsável pela região toda, Dom Warmerlindo, é quem autorizou secretamente esse evento. Dizem que quando jovem foi membro da juventude hitlerista de Pomerode. Prometeu até uma promoção ao nosso padre Geraldo daqui pela liberação do encontro. Mas, parece que a notícia chegou até o Vaticano por meio da arquidiocese de São Paulo. Ontem, à tarde ligou o próprio papa Paulo VI pra Dom Warmer e pediu esclarecimentos. Disse que ia enviar Dom Paulo Arns de São Paulo a Blumenau para mantê-lo a par da situação.

– É óbvio que Dom Warmer ficou apavorado. Assegurou ao Papa que se tratava apenas de boatos maliciosos e que na diocese dele jamais poderia acontecer tal desmando, pois a vigilância cristã era inflexível em Santa Catarina. Mandou dissolver o congresso imediatamente e dispersar os participantes. Eu mesma fui encarregada de levar a notícia aos líderes da reunião o que fiz carregando um pouco nas tintas. Falei que o delegado da polícia civil Sternhagelvoll, conhecido como Sterni, que autorizara secretamente o encontro, tinha sido preso e que a polícia militar tinha sido mobilizada pelo governador. Viriam dentro de meia hora para prender todo mundo. Houve duas ou três vozes que se pronunciaram pela permanência de todos no local, lembrando que o regime brasileiro seria até simpático ao pensamento do grupo, mas a maioria apavorou-se e começaram a fugir atabalhoadamente. Os mais sensatos lembraram que a presença do Führer não poderia absolutamente tornar-se pública, sob pena de levar à proscrição do grupo brasileiro até o fim dos tempos.

– Só com a orientação firme e decidida das irmãs Christina e Maria Benevides conseguiram organizar uma fila para sair aqui pela biblioteca, mas alguns foram pela saída para o Itajaí onde havia um barco para levar os líderes. Havia até um sujeito muito mal encarado, bem das antigas mesmo, de seus 80 anos que só falava alemão e se eu não soubesse que Hitler se matou com um tiro na cabeça, no fim da segunda guerra mundial, eu diria que poderia ser ele.

Sem mais comentários ou delongas fui direto à Rodoviária e, depois de um café reforçado peguei o ônibus para São Paulo. Chegando lá, fui direto para minha casa dormir o sono dos justos. 

Durante vários dias tentei vender a história para os principais jornais e revistas de São Paulo: Estadão, Folha, Jornal da Tarde, Veja, Realidade. Todos me recomendaram experimentar um outro caminho, no campo da ficção, ou então procurar um Psicólogo. Assim continuei minha carreira em pequenos jornais e revistas de periferia por vários anos até que me cansei de ser miserável e virei correspondente de um importante revista semanal alemã, onde estou até hoje.

Aos poucos a vida voltou a seus eixos. Meu cunhado Mário Belo soube que o meeting nazista nos túneis de Blumenau tinha sido um fracasso, pois o Führer teria desistido no último minuto. Por sua frustração virou testemunha de Jeová e dois anos mais tarde informou solenemente que seu ídolo morrera no Paraguai de velhice. Tudo igual num mundo inalterado.

Minha relação com Maria Antônia, entretanto, mudou totalmente, embora até hoje eu não saiba como isto aconteceu. Passamos a conversar mais, fazer tudo junto, namorar toda hora aos beijos e abraços, tornando-nos até inconvenientes em público em alguns momentos. Passamos a sentir enorme falta se a gente não se via algum dia. Nos momentos de excitação, que passaram a ser bastante frequentes, eu eventualmente exclamava:

– Seja bem-vinda, minha freira ...

E ela respondia:

– Vem, meu frei, vem agora que não aguento mais

E assim, alguns meses depois, nos casamos e desde então vivemos muito felizes até hoje.

 

Quando Dieter terminou sua história, já era madrugada e ninguém mais tinha coragem de ir para casa. Arrumamos o sofá-cama para o casal e um colchão para o Dieter com roupa de cama e cobertores para todos.

Todos dormiram felizes, como anjos.


Wolf Hornke é psicólogo e escritor. Como é leitor contumaz muito tem a nos ensinar sobre literatura. Em relação à poesia beat eu tem uma predileção decidida pelo Lawrence Ferlinghetti e não me sai da cabeça o poema "Estou Esperando". Envio em anexo o scan desse poema publicado pela Folha de São Paulo há muitos anos atrás com tradução de Paulo Leminsky que é primorosa, mas não a encontrei na Internet (existe uma versão de outro tradutor) . Veja também o link abaixo. 


Eu mesmo já cometi alguns poemas no passado, mas joguei fora numa hora do desespero desse labor ingrato. Fiz mais ou menos como Aristides Klafke que relatou:

Havia recebido o definitivo NÃO. 
Foi como um desabar de teto 
um abrir de comportas. 
Primeiro rasguei o pôster de Van Gogh 
atirei a gaveta de desenhos pela janela 
quebrei as pernas das cadeiras 
virei a casa ao avesso. 
Palpitavam veias em minha mente 
vozes tremulavam em meus ouvidos 
e meu sangue fervia, fervia. 
Esmurrei o antigo espelho da família 
e me vi tomado, transtornado, a navalha 
de meu pai na mão. E foi todo, tudo muito rápido: 
em nome de uma simetria que não alcanço 
compreender, cortei ambas as orelhas.  


Cuidado, povo, senão o metrô vem e te atropela! Cassiano Silveira.

 Cuidado, povo, senão o metrô vem e te atropela!

 Cassiano Silveira  (escritor e historiador)

Esses dias, enquanto conversávamos sobre tempos sombrios da história brasileira e referíamos diversas músicas que retratavam tal período, uma canção específica não me saía da cabeça. Estou falando de “Metrô linha 743”, de Raul Seixas.

Não pretendo aqui destrinchar a música, analisar versos ou estrofes. A ideia geral é bem clara, particularmente se lembrarmos de que a música foi escrita em 1984, no finalzinho da ditadura militar brasileira e assinada por um artista que nunca escondeu sua aversão por qualquer tipo de poder, particularmente os autoritários. “Metrô” fala sobre perseguir o livre pensamento, decepar as cabeças pensantes da sociedade (num sentido “geralmente” figurado...), calar aqueles que se opunham ao regime e não se deixavam ludibriar pela propaganda ufanista e pelo falso nacionalismo dos governantes e de uma parcela da população.

Vou colocar a letra abaixo:

 

Metrô Linha 743  (Raul Seixas)


Ele ia andando pela rua meio apressado

Ele sabia que tava sendo vigiado

Cheguei para ele e disse

Ei amigo, você pode me ceder um cigarro

Ele disse

Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado

Dois homens fumando juntos

Pode ser muito arriscado

 

Disse o prato mais caro do melhor banquete

É o que se come cabeça de gente que pensa

E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam

Porque quem pensa

Pensa melhor parado

Desculpe minha pressa

Fingindo atrasado

Trabalho em cartório mas sou escritor

Perdi minha pena nem sei qual foi o mês

 

Metrô linha 743


O homem apressado me deixou e saiu voando

Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando

Três outros chegaram com pistolas na mão

Um gritou

Mão na cabeça malandro

Se não quiser levar chumbo quente nos cornos

Eu disse

Claro, pois não

Mas o que é que eu fiz

Se é documento eu tenho aqui...

 

Outro disse

Não interessa, pouco importa, fique aí

Eu quero saber o que você estava pensando

Eu avalio o preço me baseando no nível mental

Que você anda por aí usando

E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando


Minha cabeça caída, solta no chão

Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez

Metrô linha 743

 

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha

Eu era agora um cérebro

Um cérebro vivo à vinagrete

 

Meu cérebro logo pensou

Que seja, mas nunca fui tiéte

Fui posto à mesa com mais dois

E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs

Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado

Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado

Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?

 

Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais

Mas o negócio é que tá muito bandeira

Tá bandeira demais meu Deus

Cuidado brother

Cuidado sábio senhor

É um conselho sério pra vocês

Eu morri e nem sei mesmo

Qual foi aquele mês

 Ah, Metrô linha 743

 

Para mim, essa música é especial (tudo bem, como grande fã de Raulzito, sou suspeito “pra” falar). Não digo que ela seja mais profunda, ou mais crítica, ou mais emocionante que tantas outras produzidas numa época tão profícua de grandes compositores e intérpretes. O que me surpreende nessa música é o quanto ela é atual. Não me refiro apenas aos últimos dois ou três anos... o “jogo dos canibais” já tá sendo armado há muito tempo. Puxe pela memória: desde “mensalões” cuja real origem cronológica foi escamoteada até um lava-jatismo deslumbrado e míope, passando pelo gaslighting* sofrido por importante figura feminina, pedaladas fiscais cuja relevância varia de acordo com o vento e golpes institucionais com odes a torturadores. Todo um cenário intencionalmente construído para convencer a população de que era necessário defenestrar o grupo político no poder a qualquer custo.

 

Bem, o custo agora parece bem alto, mas o cenário não mudou muito e todos aqueles que usam um “nível mental” um pouco mais elevado tem sua cabeça visada pelos “canibais de cabeça”. A PF está aparentemente instrumentalizada, conduzindo vozes opositoras para prestar depoimento por declarações políticas; declarações escandalosas do “Inominável” estampam manchetes de todos os meios de comunicação e nada é feito efetivamente; o judiciário agora quer ser o grande guardião da democracia, mas esteve omisso (cúmplice) ao longo de todo o processo que culminou nessa “zorra toda”. A lista de evidências de um perigoso autoritarismo que vem se instalando no país poderia ser alongada indefinidamente, mas não é esse o objetivo. O que percebo é que o “maitrê” está ansioso por servir os pratos mais apetitosos e o “senhor alinhado” está com muita fome! O pior é que o negócio “tá muito bandeira/Tá bandeira demais, meu Deus”, e mesmo assim tem gente que não quer ver.

 

Por fim, fica o sábio conselho do velho Raulzito, que devemos ter sempre em mente, enquanto preservamos nossa cabeça pensante: “Cuidado brother/Cuidado sábio senhor”...


Ilustração de Cassiano

Casiano Silveira. Nascido em Floripa/SC (1980) e atualmente morador da vizinha cidade de Palhoça, formou-se historiador e atuou na área da arqueologia por mais de 10 anos. Interessou-se por livros e ilustrações desde tenra idade, tendo lido inúmeros romances e escrito umas tantas poesias quando adolescente. As poesias foram destruídas em um arroubo passional dos tempos de recém-casado (Declara-se: –Amo-te cada dia mais, Mony!), mas a influência de Mário Quintana permaneceu.  A ironia de Luiz Fernando Veríssimo também deixou marcas em sua produção textual. Entre 2016 e 2017 trouxe a público, através do Facebook, as tirinhas cômicas “Os Cabeçudos”, discutindo sobre o cotidiano de forma um tanto nonsense. Ainda em 2017 nasceu o até agora único filho, que virou de cabeça para baixo – e para muito melhor – sua vida. Publicou artigos científicos e poemas em várias revistas e coletâneas (destacam-se o artigo Os Caixões Fúnebres na Capela de Nossa Senhora das Dores: Uso e Tipologia, Revista Tempos Acadêmicos, 2012; e os poemas Cama de Mármore, Revista Poité, 2006; Velório, PerSe, 2021 e Olho-mar, PerSe, 2021). 

Dedica-se hoje à produção de textos (entre poesias e contos), capas e ilustrações.


terça-feira, 20 de abril de 2021

Três anos lembrados por três mulheres. Edna Domenica Merola

TEMA: REFLEXÃO SOBRE O PERÍODO 1959 - 1979 NO BRASIL

Recorte cronológico: 1959, 1964, 1970

Três autoras: Maria Bernadete Viana da Silva, Marlene Xavier Nobre e Edna Domenica Merola

Três textos: 1959, ganhos e perdas; O silêncio da nossa casa; Anos de chumbo.

Maria Bernadete Viana da Silva morou de 1961 a 1973, em Ribeirão Preto, SP, onde fez seus estudos e se formou em Ciências Sociais. Morou em São Paulo, capital, de 1974 a 1985, onde casou, teve três filhos, fez especialização em História e se tornou professora efetiva da Rede Pública Estadual de SP. Mudou, em 1985, para Fernandópolis, SP, onde se aposentou, em 1999. Em abril daquele ano mudou para Florianópolis, onde os filhos cursaram a Universidade. Desde 2002 frequentou cursos de extensão da UFSC. Como voluntária, participou de Contação de Histórias para crianças em escolas e de projetos sócio culturais para grupos de terceira idade. Hoje faz curso online sobre Música Popular Brasileira. Em relação à menção do alecrim usada por Chico Buarque em Fado Tropical, comenta: "Estamos precisando de muito alecrim, arruda, espada de São Jorge para espantar e limpar caminhos da política brasileira.".

Texto selecionado para diálogo  no curso de leitura do CIC Leitores & escritores: interações, em 27/04/2021

1959, ganhos e perdas

              Maria Bernadete Viana da Silva

1959. Tinha eu 10 anos de idade. A mente fervilhava em busca de conhecimento. Vivia em uma pequena cidade onde quintais lotados de árvores frutíferas se assemelhavam aos jardins do Éden porque neles a inocência de ser único e livre prevalecia. As crianças viviam com as caras lambuzadas de caldo de frutas.

 Morei por uns tempos na casa de minha avó materna que era uma espécie de Bombril porque sabia de mil utilidades das coisas para criar filhos e netos. Eu adorava seu método de curar febre de menino. Ela comprava uma maçã importada embrulhada em papel roxo com um cheiro maravilhoso que eu até hoje busco em vão encontrar nos supermercados. Aquela iguaria fazia parte do tratamento, juntamente com a famosa água mineral Prata. 

Confesso que eu gostava de ficar doente. A eficácia do protocolo seguido por minha avó era devida ao carinho dela e ao fato de que eu me sentia especial com aqueles mimos.

Naquela época, os parentes adultos aguardavam com ansiedade a inauguração da nova capital do Brasil – Brasília – e viam com receio a corrida espacial de russos e norte americanos para conquistarem o espaço sideral que envolve a terra.

 A poética Lua seria alcançada?

Esses dois fatos históricos que se realizaram na década de 60 do século XX mudaram o Brasil e o mundo. E seus reflexos são sentidos até hoje nos anos vinte do século XXI.

A descrição de minha infância tão singela de fatos, mas recheada de amor faz um contraponto com a vida das crianças e jovens de hoje, pós conquista de espaço. 

Para a História, o tempo de 60 anos não é nada. No entanto, as mudanças ocorridas nas últimas seis décadas viraram o mundo de pernas para o ar, tanto para o bem, como para o mal.

Crianças e jovens continuam com a alma leve, sonhando com um mundo povoado de super-heróis e alegrias mil.

O problema é a falta de espaço lúdico, de segurança e da natural interação que existia entre as pessoas.

Os jovens perdem a esperança de verem realizadas suas ambições pessoais, nesse admirável mundo novo porque existe a ansiedade de ser o grande influenciador que dita regras do jogo da vida numa tela fria de um celular, onde uma manada de seguidores que não almejam ter vida própria é dominada.

É tanta informação vazia de conteúdos que hoje existe o fosso que afasta as pessoas umas das outras. A velha camaradagem, o coleguismo, a formação de opinião de alegres e despreocupados grupos adolescentes que curtiam a delícia de ser o que é já não existem mais. Nada mais "é divino e maravilhoso". A internet aprisiona e vigia a todos.

A utopia de construir um país democrático e mais justo, no Brasil, já não faz mais a cabeça da maioria dos jovens da classe média.

Quanto a Brasília, prefiro não comentar seu rumo atual para não sucumbir de tristeza! 

Quem sabe sairemos melhores desse isolamento forçado e iremos valorizar o olho no olho novamente.

Música mais tocada nas rádios brasileiras no ano do lançamento do Sputinik pelos russos.

https://www.youtube.com/watch?v=1RxGuKLHVnU


Marlene Xavier Nobre nasceu em Florianópolis /SC, em agosto de 1953. Diz que escrever é seu maior vício. É autora de A meus queridos netos cartas, Postmix,2017; Lembranças e esperanças de uma Mulher, insular, 2020. Participou da coletânea de poesias do instituto de memórias, em 2019. Da Antologia poética Vivara poesia livre, Ed nacional, 2020.  Das coletâneas O mundo parou, Centenário de Clarice Lispector, Natal, Reflexões de um pet, Apparere, 2020. E da Coletânea de poemas, Apparere, 2021.

Texto selecionado para diálogo  no curso de leitura do CIC Leitores & escritores: interações, em 27/04/2021

 O silêncio da nossa casa. 

                            Marlene Xavier Nobre


Era 1964, tinha onze anos de idade.

Guardo na memória a triste lembrança de meu pai. Subiu o morro com os cabelos revirados e os olhos arregalados. Foi amparado por minha mãe.

De imediato, não entendi a gravidade do que vivíamos. Soube depois que meu pai fazia parte de um movimento político.

Foi numa segunda-feira. Meu pai estava no trabalho, em sua função de gráfico. A polícia militar fez um arrastão pela cidade à procura do grupo a que meu pai pertencia.

Ele não havia matado e nem roubado. Como cidadão, ele lutava pelos seus direitos. Prenderam todos os seus amigos.

Meses depois, meu pai ficou sabendo que seus companheiros haviam sido levados para a Ilha das Cobras (RJ), onde foram torturados e mortos.

Meu pai ficou dois meses preso no quarto de nossa casa. Lembro-me de que na casa de madeira na qual morávamos tinha frestas. Minha mãe, minhas irmãs e eu colocamos jornais para tapá-las.

Fui escolhida para ir, diariamente, comprar jornais na banca que ficava na Avenida Mauro Ramos, à altura do número 982. Antes que saísse de casa, meu pai recomendava que se alguém perguntasse por ele, que não respondesse. Poderia falar apenas com o dono da banca, mas em tom bem baixo, e dar notícias dele.

Todas as noites ele ouvia, no rádio, as notícias sobre o país.

Foi uma época muito tensa. Minha vida e dos irmãos ficou muito restrita. Só podíamos brincar no quintal, mas não podíamos dizer uma palavra. O silêncio imperava. Só saíamos para ir à escola.

Quando passavam aviões da FAB, meu pai ficava em pânico.

Meu pai era algoz de si mesmo. Não via o sol e nem a luz do dia. Ficou de barba e cabelo por fazer. Estava bem abatido.

Minha pobre mãe nada podia fazer além de cuidar e de se dedicar a ele, naquele momento difícil.

Sinto que ele foi forte para resistir psicologicamente e conseguir sobreviver. Sempre dizia para minha mãe que sua luta era em benefício de seus netos.

Os netos de meu pai cursaram a universidade. Isso foi uma grande abertura para a nossa família e para muitas outras de origens semelhantes à nossa.

Os bisnetos de meu pai experimentam hoje o retrocesso histórico relativo ao cerceamento de liberdades.

O bisavô deles, como eterno militante, deve estar novamente sofrendo por isso, no Além.


Edna Domenica Merola ingressou na Universidade de São Paulo aos 17 anos, leu Stendhal, Proust e Sartre, no original. Foi aluna de Antônio Cândido, Décio de Almeida Prado e Alfredo Bosi. Licenciou-se em Letras, lecionou Português nas redes públicas municipal e estadual de São Paulo.  Trabalhou em sala de leitura e, junto com seus alunos, entrevistou Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Camila Cerqueira César, Stella Carr, Edson Gabriel Garcia e outros.  Suas leituras recorrentes: Alice no país das maravilhas, Macunaíma, O alienista, Estrela da Vida Inteira, Morte e Vida Severina. Nos anos de chumbo, manteve-se existencialmente graças à leitura diária da coluna na Folha de São Paulo que trouxe, em períodos diferentes: Carlos Drummond de Andrade e Lourenço Diaféria, e ainda, graças ao teatro de Ionesco, Arrabal, Sartre, Brecht, Boal, Gianfrancesco Guarnieri. Da música popular brasileira destaca: Vinícius de Moraes, Elis Regina, Maria Betânia, Gal Costa, Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, Caetano Veloso. É pedagoga e exerceu as funções de coordenadora pedagógica e de supervisora de ensino. Psicóloga, psicodramatista, mestre em Educação e Comunicação. Publicou livros que mesclam textos literários e explanações sobre aspectos metodológicos de realização de oficinas de escrita criativa: Aquecendo a Produção na Sala de Aula (Nativa, 2001), De que são feitas as Histórias (Postmix, 2014); Diálogos da maturidade (Postmix, 2016); Relógio de Memórias (Postmix, 2017). Escreve poemas: Cora, Coração (Nova Letra, 2011) e contos e crônicas: A Volta do Contador de Histórias (Nova Letra, 2011); No Ano do Dragão (Postmix, 2012); As Marias de San Gennaro (Insular, 2019). 


Texto selecionado para diálogo  no curso de leitura do CIC Leitores & escritores: interações, em 27/04/2021

Anos de Chumbo

MEROLA, Edna Domenica. No ano do dragão. Postmix, 2012, pp 47-49. 

Conversas com amigos acabam evocando memórias do tempo passado. Memórias que aprofundamos para nos tornarmos mais presentes e mais autênticos nos papéis que desempenhamos agora.

Mas cá entre nós, há momentos que estamos a fim de curtir um papo de boteco conosco mesmos, mas sem mesa de bar. Nesses momentos, sobriamente, opto pela fiel mesa do computador.

Quero agora evocar lembranças do final dos anos sessenta e início dos anos setenta. Nesta época, estudava no Ensino Médio, em escola pública. Tinha, entre outras, duas amigas.

Uma se chamava Ana Maria. Morava na parte mais pobre do bairro. Tinha em sua sala uma linda foto do Che Guevara.

A outra era a Lourdes. Morava na parte mais nobre do bairro. Ela contava com orgulho que sua mãe a levara para ver o desfile dos canhões na rua, no dia em que os militares assumiram o poder no Brasil.

Lourdes e eu fizemos curso preparatório ao vestibular. Já Ana Maria se preparou sozinha. Nós três entramos na universidade pública.

Essa é uma página da minha história de vida que costumo reler. Diz respeito à escolha do curso na primeira vez que me inscrevi num concurso vestibular.

Era aluna de um bom curso preparatório ao vestibular, tinha só dezessete anos. Era o segundo semestre letivo do ano civil de 1970. O Governo resolveu mudar a configuração dos vestibulares. Alguns cursos de bacharelado, reconhecidamente de Humanas, foram colocados em Exatas.

Inscrevi-me direto na minha segunda opção que continuou sendo de Humanas, mesmo após a perversa mudança.

Logo de saída, senti na cara o peso da mão de ferro que estrangulou o sistema educacional durante aqueles anos.

Passei no vestibular, cursei a faculdade.

Lá ampliei meu rol de conhecimentos de pessoas. Fiz amizades superficiais. Mesmo quando havia simpatia recíproca, os laços não se aprofundavam, pois a época era de silêncio e medo dos repressores espalhados pelo campus universitário.

As alunas que faziam alguma disciplina em caráter de dependência contavam dos professores que tinham sido afastados pelas medidas dos anos de chumbo.

Já no terceiro ano da faculdade comecei a trabalhar na área. Fiz vários cursos depois. Mas nunca aquele, com sabor de dezessete anos.

Então em alguns momentos experimento uma vontade de “volver a los 17”!

Já em outros momentos, percebo que intuitivamente agi para me preservar, afastando-me de um curso tão visado pelo esquema da censura cultural que assolava o Brasil, à época.

Agora percebo o porquê de levar em conta o viés social na análise das escolhas feitas sob o impacto de se sentir uma pessoa impotente, psicologicamente, perante uma conjuntura sociopolítica perversa.

Confesso que mantive guardada a sete chaves, no fundo do baú, o que vou revelar agora. No início dos anos de chumbo, [...] Defendia minhas ideias em reuniões de família: palestras para a pequena burguesia.

Não queria casar, nem ter filhos. Hoje sou mãe de Otávio, Ornella e Chiara. Não gostaria que eles participassem de nenhuma revolução na qual se fizesse o uso de armas.

Ainda me conservo fiel à antipatia pelos amigos e familiares que à época professavam o discurso da direita. No entanto, meu filho Otávio culpa a nossa geração pela situação em que o país se encontrava naquela época [e se encontra hoje]. Igualmente ao que eu fazia na juventude, em relação aos mais velhos.

É... Gatinho que nasce no forno não é biscoito!

Guardei por muito tempo aquele sabor amargo de ter sido espoliada de tempos de um Brasil mais ameno para mentes curiosas.

Carregava também a sensação de que meus pares tinham caído antes que pudesse conhecê-los. E que tinha por opções: o convívio com alienados ou o isolamento. Isso se dava porque os repressores incutiam o desprezo comezinho aos intelectuais idealistas que se dedicavam aos serviços públicos mal remunerados tais como os prestados em saúde e em educação.

Valores burgueses eram responsáveis pela baixa autoestima de certos intelectuais. À época, os idealistas lotavam os consultórios dos psicólogos!

Hoje, de um patamar quase septuagenário, posso contemplar as memórias evocadas desse tempo passado. Posso compartilhar minhas lembranças, em testemunho, com aqueles que terão de construir o futuro.


Observações

A ditadura civil-militar instaurada em 1964, no Brasil

Durante muito tempo era possível saber a posição política de uma pessoa no Brasil a partir da forma como ela designava este fato. Se falava em Revolução de 31 de março, já sabíamos que era alguém que apoiava os militares. Se, ao contrário, se referia ao ‘Golpe do 1° de abril’, era alguém que se opunha ao arbítrio. (Zilah Wendel Abramo)

Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra (peça “Calabar ou o elogio da traição”, 1973), critica a colonização portuguesa e o salazarismo, assim como a ditadura civil-militar instaurada em 1964.

https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/fado-tropical.html

                                    Fado Tropical

“Oh, musa do meu fado

Oh, minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.”


                 Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra

 Ouça    sobre a ditadura portuguesa, no século XX, e a Revolução dos cravos.

 https://youtu.be/gFUPgmJo2dk


Ouça a música O bêbado e a equilibrista

https://www.letras.mus.br/joao-bosco/46527/

O Bêbado e a Equilibrista é uma composição da dupla João Bosco e Aldir Blanc que ficou conhecida pela interpretação de Elis Regina. Na memória coletiva brasileira, essa música remete ao movimento pró “Diretas Já” e  à anistia política. Isso significa que – no final da década de 70 do séc. XX – a sociedade brasileira almejava livrar-se do bipartidarismo (ARENA e MDB) e das eleições indiretas, assim como devolver os direitos políticos e descriminalizar aqueles que haviam se rebelado contra a ditadura.

O bêbado é metáfora dos que sofriam os efeitos das exclusões sociais advindas de políticas públicas justificadas pela teoria da degenerescência. A equilibrista representa a classe artística que se via constantemente às voltas com a censura, durante a ditadura civil militar brasileira, período em que o governo empregava verdadeira força de guerra contra a produção artística, como se o território cultural fosse o mesmo que o geográfico, devendo ser defendido pelo exército. Os opositores da ditadura — intelectuais/artistas — foram perseguidos como acontece numa verdadeira “caça à raposa”.

Durante o Regime Civil-Militar brasileiro, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) vigorou de 1968 a 1978, evidenciando um panorama político de repressão truculenta e de censura à arte. 

O conservadorismo vigente na Era Vargas já sofrera algumas desconstruções no âmbito do comportamento (moda, gosto musical, moral e costumes). Essas mudanças sociais se consolidaram, de certa forma, no final da década de 70, com a aprovação da Lei do divórcio (Lei nº 6.515, de 26 de Dezembro de 1977). Mas politicamente, a década iniciou e terminou sob as rédeas dos generais.

O Bêbado e a Equilibrista, emblemático, na MP, é um trabalho conjunto do músico (João Bosco), do letrista (Aldir Blanc) e da intérprete (Elis Regina) que apesar de coetâneos iniciaram suas carreiras em três décadas diferentes (50, 60 e 70 do séc. XX). Essa música que se tornou um hino contra a ditadura militar, num de seus versos: sonha com a volta do irmão do Henfil – faz referência ao cartunista Henrique de Sousa Filho que à época tinha um irmão, o sociólogo Betinho, em exílio político no exterior.

Em: Choram Marias/ E Clarices/No solo do Brasil, há referência à viúva de Vladimir Herzog, professor da USP e jornalista da Cultura. Vlado Herzog foi torturado até a morte (em 25/10/1975) nas instalações do DOI-CODI, no quartel-general do II Exército, em São Paulo, após ter se apresentado ao órgão para prestar esclarecimentos sobre suas ligações e atividades criminosas.

Em março de 1979, 15 anos após o golpe militar de 1964, João Batista Figueiredo assume a presidência da República. Ex-chefe do Serviço Nacional de Inteligência, o antigo SNI, Figueiredo tinha a tarefa de consolidar a abertura política e assegurar a transição democrática. Sua primeira medida nesse sentido foi a sanção, em 28 de agosto de 1979, da lei 6.683, que concedia anistia a todos os que haviam cometido crimes políticos desde setembro de 1961 até aquela data. A lei teve efeito imediato e beneficiou 2.200 pessoas, que puderam deixar a clandestinidade ou retornar ao Brasil após exílio no exterior.

O sociólogo Herbert José de Souza, Betinho, retornou após oito anos de exílio, em 16 de setembro de 1979. No aeroporto de Congonhas (São Paulo, SP) foi recebido pelo irmão, o cartunista Henfil, e por vários amigos. Em entrevista à repórter Helena de Grammont, Betinho contou que todos ficariam felizes no dia em que anistia fosse ampla, geral e irrestrita. A reportagem foi ao ar no Fantástico daquele dia.

Muitos dos beneficiados pela anistia voltaram à cena política nacional se ligando aos novos partidos políticos fundados desde novembro, depois de aprovada a lei orgânica que extinguiu a Arena e o MDB e restabeleceu o pluripartidarismo no país.

https://aquecendoaescrita.blogspot.com/2015/05/o-bebado-e-equilibrista-edna-domenica_16.html


REFERÊNCIAS

BLANC, Aldir e BOSCO, João. Música O bêbado e a equilibrista.

 http://www.vagalume.com.br/elis-regina/o-bebado-e-a-equilibrista.html

MEROLA, Edna Domenica. Anos de Chumbo. No ano do dragão. Postmix, 2012, pp 47-49.

MEROLA, Edna Domenica. O bêbado e a equilibrista.

 https://aquecendoaescrita.blogspot.com/2015/05/o-bebado-e-equilibrista-edna-domenica_16.html

NOBRE, Marlene Xavier. O silêncio da nossa casa. Lembranças e esperanças de uma mulher. Insular, 2019.

VIANA DA SILVA, Maria Bernadete . 1959, ganhos e perdas.

Oficina de Leitura reflexiva do texto para teatro O crush da professora "Z" Maria de Edna Domenica Merola

 26/04/2022   O crush da Professora “Z” Maria   Tendo por chave o Teatro do Absurdo, relembro A Cantora Careca , de Ionesco, e pre...