domingo, 18 de abril de 2021

Leitores & Escritores - Terceiro Encontro - Interações com Gilberto Motta

Floripa. 2020.

Créditos Gilberto Motta

Gilberto Motta é administrador do grupo Oficina de textos curtos


LIVROS...

(Por Gibamotta)

Tenho arrumado os livros...

Tiro de uma prateleira sem ordem e coloco em outra -com ordem.

Sobram espaços vazios.

Reponho tudo no mesmo lugar -bagunço a ordem- e calo.

Desmonto prateleiras e chamo o homem dos móveis usados.

Vendo tudo.

Depois vou até a loja e compro tudo de volta.

Nada me faz tão ocupado: tenho arrumado os livros...

Busco espaços imaginários que esperam novos livros.

Livros e prateleiras são objetos que habitam locais de passagem.

Novamente me agito e troco tudo de lugar.

Desmonto as prateleiras e (re)invento desafios.

Brigo com a síndica pelo cartaz exposto no hall em letras garrafais:

"PROIBIDO LIVROS"

Jogo os livros no hall -ali também é um lugar de passagem.

Territórios que não existem me perseguem feito praga.

A polícia chega e em seguida os bombeiros.

A ação é fulminante e duas filas são formadas:

uma com os livros algemados entrando no camburão.

E outra, os livros sendo amontoados na grande pilha.

Penso em silêncio:

“Enfim, conseguiram prender a imaginação!".

Ligo o computador e teclo com o mundo pela internet.

Tão bom ser Deus.

Bobagem, delírio de grandeza.

Explico, meus livros estão algemados e serão queimados.

Ninguém responde.

(Não haveria mesmo explicações plausíveis).

Pela porta já aberta entra a síndica com um carrinho de tijolos.

Após a ríspida ordem (re)monto rapidamente a estante na sala.

Nela disponho os tijolos ordenadamente em exposição.

Escondo os livros no compartimento secreto.

Tenho arrumado os livros, mano, juro!

Tenho arrumado os livros…



Gilberto Motta, nasceu e cresceu em um circo-teatro dos pais onde foi ator, músico, palhacinho e cantor mirim.

Começou na rádio Piratinga de Tupã, interior de São Paulo.

 Cursou a Faculdade Cásper Líber/SP de jornalismo e trabalhou em rádio, jornais e TV em SP e SC.

 

É compositor, escritor, poeta, jornalista.












Composição musical e letra
EM MOVIMENTO"
            Gilberto Motta

Vamos remando 
Se com barcos barqueando 
Se com braços bracejando 
Desafiando o flutuar 

Vamos sonhando 
Se com versos versejando 
Se com pragas praguejando 
Contra quem não quer pulsar 

Vamos rezando 
Língua solta estradando 
Destilada na maneira 
da nossa alma sangrear 

Vamos correndo 
Tropeçando movimento 
Braço a braço monumento 
Livre piroletear 

Que giro é este? 
Corpo torto zunzonzeira 
Que trava trevas canseira 
Pernas a fricotear 

Virá o dia:  destrambelhada carreira, 
em que o passo descompasso 
mundo redemoinhoará 

Professor, mestre em mídia e conhecimento, consultor/palestrante e pesquisador cultural. Realiza cursos e oficinas literárias, TV, rádio, cinema e redes sociais.

 

Documentarista audiovisual, especializado em multimídias e comunicação digital, educação e comunicação para multiplataformas. Leitor voraz de Guimarães Rosa e apaixonado por Felline e Tim Burton no cinema.

Nos últimos anos, publicou em e-book (Amazon) a novela infanto-juvenil “A Incrível Jornada da Menina Careca”, as memórias sobre os pais “Céu de Vaga-lumes: lembranças e Andanças de Motinha e Nhá Fia e o Circo Imaginário”, além de integrar diversas coletâneas de contos, crônicas e poesias. Prepara atualmente o livro “Vamos Fazer uma Boa Tarde: Mário Motta, do picadeiro circense ao picadeiro eletrônico do Jornal Nacional”, os contos “Cotidemia: saudades do Futuro” e o romance “As Mãos
de Guevara”.

A CRÔNICA/CONTO DE SÁBADO (17/04/2021)

*(Por Gilberto Motta)

“MIOLO” (Cânticos para ninar pirados e piradas)

Cântico Primeiro

(A câmera busca em zoom/close-up o rosto da mulher de olhos verdes, fatais, enigmáticos. A mulher está sentada em frente à velha penteadeira; veste uma camisola negra e tem os seios fartos sutilmente expostos. /Corte/ Plano médio destaca o homem parado ao lado da cama; ele é baixo, cabelos fixados com brilhantina, usa camiseta branca regatas e tem ódio no olhar./Corte/ Ação/ O homem olha para ela /sobe trilha em BG, um tango de Gardel/ A câmera vai fechando lentamente em direção à vitrola solid-state enquanto descreve detalhes do quarto do motel chinfrim./Corte/ Plano médio registra o homem deixando o quarto batendo a porta com violência./Corte/Sob trilha em BG; a câmera descreve a cena em que a mulher permanece sentada, imóvel, olhando fixamente para seu rosto refletido no espelho da penteadeira./Corte/A tela escurece em fade-out e surge a inscrição: THE END)

Cântico Segundo

Era um velho prédio no centro da cidade.

Paredes descascadas.

Infiltrações profundas.

Do original sobrara apenas o portal composto por arcos barrocos.

Apesar da ação do tempo, guardara certa dignidade.

A placa em mármore europeu confirmava o passado histórico:

CINE CAIRO (O Palácio da Sétima Arte)

Inaugurado em 13 – 02 – 1952.

O homem não sabia o motivo da fixação.

O olhar preso ao portal barroco e o coração aos pulos.

A semana inteira repetira o mesmo ritual.

Era o sétimo dia.

Não sabia nada sobre filmes; gostava mesmo das novelas cubanas de Glória Magadan que via na TV.

O velho CAIRO guardara mistérios em imagens fragmentadas de clássicos do cinema em preto e branco.

Resistira à chegada da televisão programando o mesmo filme nas duas sessões da tarde; todos os dias da semana, nos últimos sete meses, sem interrupção.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (GIANTS)

Estrelado por Rock Hudson, Elisabeth Taylor e James Dean.

O homem tentou ler os nomes dos artistas no colorido cartaz.

Não consegui decifrar o código.

Mas, qual a razão para o mesmo ritual todos os dias?

Por que a certeza de que, nos próximos minutos, compraria ingresso e sentaria numa desconfortável poltrona da sétima fila?

Estava ali.

Estático, na encruzilhada de seu destino: o homem e sua mala.

Cântico Terceiro

A mala tinha como trinco um cinto vermelho de mulher.

Parecia maior nas mãos pequeninas do homem. Cruzou os arcos barrocos e entregou o bilhete ao porteiro.

Foi conduzido por Sam, o mais antigo lanterninha da cidade.

O Cairo transpirava sonhos e fantasias.

Sam era fanático pelo filme CASABLANCA.

A homenagem do apelido só poderia ser uma nostálgica referência ao pianista do Rick`s Bar.

A mala parecia invisível.

Nas grandes cidades, o destino trama com o anonimato certos jogos aparentemente desconexos. Escuridão.

Explode na tela o canhão de luz.

Cântico Quarto

A sessão das 14 h teve início com o jornal ATUALIDADES ESPORTIVAS: CANAL 100.

O homem detestava esportes.

Tinha pés chatos, era baixinho, atarracado e lento.

Na sala de projeção havia pouca gente.

Todas figurinhas conhecidas de Sam.

O bêbado com a camisa manchada de sangue; a vendedora de bombons de seios enormes e maquiagem carregada; o marinheiro com seu amante travesti; alguns secundaristas à procura de “um” para fumar e mais alguns pirados e piradas das ruas do centro.

Na tela, imagens narram uma história decadente. Vertigem:

(Começa o filme e o homem da sétima fila nem pisca./Corte/Zoom no rosto de James Dean, na pele de um velho magnata do petróleo marcado pelo álcool e abandonado pela mulher amada (Taylor)./Dean é o retrato da desesperança./Corte/Câmera em movimento ascendente de grua descrevendo do alto o imenso salão da mansão de Dean, onde os donos do petróleo do Texas realizam uma convenção em homenagem ao personagem de Dean./Na sétima fila, o homem suspira com sofreguidão)

Cântico Quinto

Ele vinha do interior e gastara os últimos trocados ao pagar o cubículo fedorento da pensão ao lado do CAIRO.

Sete diárias. Sete noites e sete dias.

Não tinha referências nem identidade; apenas a mala.

Soltou o cinto/trinco da mala.

Na tela amarelada pelo tempo, a emoção das imagens texanas e a humanidade caminhando, agora, num ritmo frenético.

Coração aos pulos, respiração acelerada, adrenalina total, entranhas saindo pela boca, dentes travados!

Abriu a mala.

O travesti vai ao orgasmo com o beijo de língua do amante marinheiro.

A humanidade não para e caminha e caminha e o velho CAIRO gira a luz explode em cores saturadas na tela em Cinemascope.

Cântico Sexto

Cumprindo a ronda costumeira, Sam passa em revista as fileiras acendendo e apagando sua lanterna.

Na tela, o sonho e a realidade:

(A personagem de James Dean destrói o sonho americano de viver, marcando para sempre a geração perdida dos anos 50 e as que viriam./Corte/Os toques visionários,a juventude transviada e os heróis sem causa ficariam como habitantes de um mundo fragmentado, em pedaços, feito habitantes de um território inexistente, um não-lugar./Corte/Sobe trilha em BG e a personagem de Dean, após um ataque causado pelo delírio alcoólico, rola pela longa escada de sua mansão depois de um violento, irado e lúcido discurso final./Corte/A tela escurece em fade-out e surge a inscrição: THE END)

As luzes estão acesas.

Alguém tropeça no corpo do homem e um grito desesperado invade a sala do velho cinema.

Cântico Sétimo

___ Prensou todo mundo que tava no pulgueiro? Alguém conhece o cara? –perguntou o investigador.

___ Negativo, chefe! Tenho certeza de que não é gente daqui. –respondeu Sam, com voz trêmula.

___ Ok, Sam! Ninguém mexe no corpo até o pessoal da perícia chegar. – ordenou o policial, liberando o pessoal do cine CAIRO.

Sobre a poltrona da sétima fila a mala estava aberta.

Dentro dela: uma camiseta do tipo regata, um vidro de brilhantina, uma pequena vitrola, um disco de tango de Gardel, uma camisola negra e uma revista de fotonovelas com todas as páginas arrancadas, menos a última:

“Existirá mesmo a felicidade eterna, meu querido? Talvez nem exista essa tal... Amanhã restarão apenas um lençol manchado, em desalinho; rostos amarrotados e dois corações eternamente a vagar.”

A sessão das 17h, começou com dezessete minutos de atraso.

Na manhã seguinte, o fato emplacou a manchete do jornal sensacionalista:

“Travesti alucinado corta os pulsos no Cine Cairo”

***

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Leitores & Escritores: interações. Segundo encontro.

 O escritor convidado de Leitores & Escritores de 13/04/2021 é:

Cassiano Silveira. Nascido em Floripa/SC (1980) e atualmente morador da vizinha cidade de Palhoça, formou-se historiador e atuou na área da arqueologia por mais de 10 anos. Interessou-se por livros e ilustrações desde tenra idade, tendo lido inúmeros romances e escrito umas tantas poesias quando adolescente. As poesias foram destruídas em um arroubo passional dos tempos de recém-casado (Declara-se: –Amo-te cada dia mais, Mony!), mas a influência de Mário Quintana permaneceu.  A ironia de Luiz Fernando Veríssimo também deixou marcas em sua produção textual. Entre 2016 e 2017 trouxe a público, através do Facebook, as tirinhas cômicas “Os Cabeçudos”, discutindo sobre o cotidiano de forma um tanto nonsense. Ainda em 2017 nasceu o até agora único filho, que virou de cabeça para baixo – e para muito melhor – sua vida. Publicou artigos científicos e poemas em várias revistas e coletâneas (destacam-se o artigo Os Caixões Fúnebres na Capela de Nossa Senhora das Dores: Uso e Tipologia, Revista Tempos Acadêmicos, 2012; e os poemas Cama de Mármore, Revista Poité, 2006; Velório, PerSe, 2021 e Olho-mar, PerSe, 2021). 

Dedica-se hoje à produção de textos (entre poesias e contos), capas e ilustrações.


Capa Cassiano Silveira 
Capa Cassiano Silveira

Capa Cassiano Silveira


Ilustrou  as capas dos livros A Meus Queridos Netos, de Marlene Xavier Nobre (Postmix, 2017);  Coletânea de Poemas (PerSe, 2021), Coletânea Cartas não enviadas (Apparere, 2021).


Cama de Mármore 

 

Após comer os restos 

Deita-se com a tristeza 

E o peso da culpa 

 

O cheiro da morte 

Inferniza aqueles 

Que não sabem que já estão 

 

Mortos de medo 

 

(publicada em “Revista Poité ”, 2006) 



Olho-mar 

 

Começa aos poucos. Aquele alegre dia de sol vai cedendo lugar às nuvens escuras. Na praia as água convidativas, calmas e mornas, lentamente ficam turvas e mexidas. As marolas gracejosas e espumas inocentes se revoltam, se quebram num furor crescente. 

O vento salpica água salgada, que escorre pela expressão constrita do teu rosto de mulher. As ondas fortes batem compassadas, espancam as rochas caladas, derrubam e arrasam o quebra-mar. O som do trovão emudece a mente, o brilho de um raio revela o pranto furioso do mar. A longa noite de açoites passa em minutos eternos, o corpo de costão sofrendo em soluços profundos. 

Mas a tempestade sempre acaba. A manhã seguinte encontra os destroços na praia, peixes mortos pela areia, as baleeiras encalhadas, gosto e cheiro de ressaca. Encontra as redes rasgadas e as pessoas silenciosas, as pedras imutáveis e as coisas mudas. Encontra tudo no seu indevido lugar. A manhã também encontra o mais importante: um mar em calmaria. 

 

Esse mar dos teus olhos. 

 

(publicada em “Coletânea A Lágrima e o Tempo”, Ed. PerSe, 2021) 



Velório 

 

Essas velas 

Que o tempo consome 

Esses pratos 

Do pão que se come 

Esses copos 

De vinho sem nome 

Quantas vezes 

Matei esse homem 

 

Essas velas 

É o fogo que come 

Esses pratos 

E o corpo do homem 

Esses copos 

Que a sede consome 

Quantas vezes 

Lembrei o seu nome 

 

Essas velas 

Queimando com fome 

Esses pratos 

Que a gula consome 

Esses corpos 

Que já não tem nome 

Quantas vezes 

Eu sou o que some 

 

(publicada em “4ª Coletânea de Poemas ”, Ed. PerSe, 2021) 


No forno estão vários textos infantis, que escreve como se fossem para seu filho (e serão também).


“Os Cabeçudos" - tirinhas cômicas Facebook. 





https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1100434977050619&id=100012523804831

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Leitores & Escritores: interações

 

O ciclo de encontros entre leitores e escritores, on line, começou em 06/04/2021, com a presença da jornalista Brígida Poli.

Saiba algo sobre ela, lendo nossa entrevista:

 https://aquecendoaescrita.blogspot.com/2019/06/nova-producao-de-ema-brigida-de-poli_13.html

Para os alunos inscritos no curso do CIC, disponibilizamos os textos que serão objeto das interações da primeira aula.


A MULHER NA JANELA
Brígida De Poli
(Florianópolis – Brasil)

1° dia
Olha só, querido, apenas agora que cheguei à janela e vi a quadra de
esportes do condomínio me dei conta do que estava sentindo falta. O
lugar está vazio! É da algazarra das crianças que sinto falta. Elas não estão
brincando, correndo, jogando bola e gritando como sempre faziam. Lembra
quando algum vizinho reclamava na assembléia de moradores do barulho
dos pequenos ? “A gritaria perturba meu sono da tarde”, diziam eles. E nós,
mesmo sem criança em casa, intervínhamos a favor delas. “ Gosto de ouvir
a algaravia dos meninos, até o grito aguuuudo das meninas. Me dá uma
sensação de vida, de alegria, de algo que se renova”, argumentava, enquanto
me olhavam como se eu fosse uma lunática.
Sabes que eu estava acostumada a fazer o trabalho de casa e a escrever
com aquele som ambiente. Desde ontem, com o início do confinamento, as
crianças estão proibidas de brincar lá fora. Não perturbam mais a siesta dos
moradores. Agora, só ouço o tec-tec do teclado do computador enquanto
escrevo. O resto é silêncio.

2° dia

Estou vendo pela janela aquele velhinho do outro apartamento. Ele vai
carregando o lixo. Vai devagar, encurvadinho. Precisa andar bastante, pois
o depósito dos detritos é láaa no início do condomínio. Acho que ele vive
sozinho. Sabe do que lembrei, meu querido? Dos velhinhos de Barcelona.
Quando cheguei na grande cidade espanhola aprendi de cara que pedir
informações era quase uma ofensa. A resposta era sempre ríspida. Tive a
ousadia de perguntar à recepcionista do hotel se as lojas ficavam abertas
aos domingos. “Por supuesto que NO! En su país las tiendas se quedan
abiertas aos domingos?!! Nem respondi que “sí, se quedan” para não atiçar
ainda mais a ira da criatura.
 Ainda não existiam os maravilhosos smartphones, onde uma breve pesquisa
nos esclarece tudo. Um dia, meio perdida, me aproximei de alguns velhinhos
sentados no banco da praça. Traumatizada, pedi informação cheia de medo.
Eles foram amáveis, solícitos em tentar entender meu portuñol. Logo percebi
que eram todos assim. Passei a fazer dos viejitos o meu oráculo. Já puxava
outros assuntos, conversávamos e ríamos. Entendi que o banco da praça
era o seu lugar de encontrar outras pessoas, de ter com quem falar, de ver
a vida acontecendo. Ah, sei que já te contei esta histórias mil vezes, né, meu
amor?
Mas assim que li que a Espanha é um dos países mais atingidos pela peste,
com isolamento social obrigatório, pensei logo nos meus amigos ancianos.
Morreram milhares, outros estão trancados em casa. Não podem mais
sentar no banco das praças, perderam seu porto anti-solidão. Meu coração
fica apertadinho de compaixão e choro por eles, até ficar com “o coração
amolecido como figo em calda”.

3° dia

Sabe, meu amor, hoje vi uma mulher indo e a outra vindo no corredor que
liga os prédios no condomínio. Parei o que estava fazendo e me amparei
no peitoril para observar melhor o que ia acontecer. Me senti como aquelas
vizinhas fofoqueiras que quase caem da janela para cuidar da vida dos
outros! Mas vi as duas se cumprimentarem de longe com um aceno de
cabeça e se afastarem ao máximo na hora de cruzarem uma pela outra. O
olhar acima das máscaras era de temor. Saíram caminhando rápido, cada
qual em direção ao seu destino.
Eu já as tinha visto várias vezes antes da peste e pareciam bem próximas.
Sempre se abraçavam, riam e conversavam no jardim, enquanto os filhos
brincavam ali por perto. Agora se evitam. Medo do contágio.
Não sei se te contei, querido, que li que um dos fatores decisivos para a
contaminação veloz e dizimadora da peste na Itália é o hábito dos abraços,
os almoços em família, as avós que cuidam dos netos. Triste imaginar que o
afeto pode trazer algum dano!
Talvez pelo meu DNA calabrês, adoro abraçar, você sabe. Mal vejo um amigo
do outro lado da rua já abro os braços. Você mesmo diz que eu pareço um
polvo ! Faz tantos dias que não ataco ninguém assim. Quanto tempo falta?
Quanto tempo falta? O que você acha? Ninguém responde.

4° dia

Bom dia, meu amor. Vi uma coisa tão engraçada na sacada do outro
apartamento hoje! Queria te contar logo. Sabe aquele homem enorme do
bloco em frente? Aquele mesmo, musculoso, com cara de ogro ? Pois eu o vi
pintando o cabelo da mulher dele! Passava o pincel delicadamente, mecha
por mecha! Enquanto eu pensava que ela devia ter tido muita persistência
para convencê-lo a fazer aquilo, já que a quarentena não permite salões de
beleza abertos... a mulher estendeu o pé e ele começou a pintar as unhas
dela! De vermelho! Fiquei hipnotizada vendo aquela cena, querido. O que
será que vai acontecer depois que tudo voltar ao normal (você crê que vai
voltar?)? Esses novos hábitos ficarão ou serão imediatamente esquecidos...
hã...sei lá, não sei... Fiquei rindo sozinha, imaginando que o vizinho, delegado
de polícia, possa se encantar com as novas atividades, trocar de profissão e
abrir um salão de estética! Hahahaha...

5° dia

Pandemia, coronavírus, Covid, quarentena, cloroquina, respirador, síndrome
respiratória, Sars, óbitos, OAS, psicopata, carreata, positivo, negativo, morte,
mortes, mais mortes... Não consegui dormir essa noite. Estas palavras
ficavam girando na minha cabeça. Pandemia, covid, mortes, mais mortes...
um círculo vicioso de palavras fazendo barulho na minha cabeça. Pandemia,
quarentena, isolamento, mortes, mais mortes... Meu amor, ajuda a silenciar
minha mente. Estou exausta. Exausta.

6° dia

Você me chamou? Ouvi uma voz e não vejo ninguém lá fora. Ai, acho que
a voz é minha! Já falava com as plantas, mas agora falo comigo mesma ?!
Olho para a tua foto na estante, meio envergonhada. Você me observa com
aquele olhar entre irônico e divertido. O que estarias pensando ?
- “Minha mulher é doida”, dirias, dando uma gargalhada !
- “Não gosto que riam de mim, você sabe”! Mas minha zanga só te faria rir
ainda mais.
Preciso te confessar uma coisa. Hoje, depois de tanto tempo, senti um certo
alívio por você não estar mais aqui. Pensei “ele não está passando por mais
este drama, por mais esta angústia. Você acreditava que era possível tornar
o mundo melhor, menos desigual. Fez a sua parte, foi à rua sem medo,
apesar das terríveis lembranças da prisão e do exílio. Quando parecia que,
enfim, havíamos alcançado nosso sonho... veio a roda viva e carregou nossas
esperanças pra lá. Você foi ficando cada vez mais calado, mais triste. E um
dia sem me avisar, seu coração parou. Agradeço aos deuses você ter sido
poupado desta peste, mas tua ausência me dá tanta saudades que chega
a doer. Fecho a janela para ninguém me ver chorar. Solidão enorme, do
tamanho daquela dos velhinhos das praças de Barcelona. Do porta-retrato
você me olha, calado, cheio de amor.

Fim

( Texto selecionado no concurso de textos para teatro Cenas do Confinamento/Escenas del Confinamiento - autores de vários países de língua portuguesa e espanhola. Publicado no e-book Cenas de Confinamento/2020).


Parte I

DOIS TEXTOS DA COLUNA CINE&SÉRIES –PORTAL MAKING OF

Cine&Séries: vírus, contágio, epidemia, pandemia...

Confesso que relutei a entrar no tema, mas acabei vencida pela obsessão que tomou conta do planeta diante do coronavírus. E vamos combinar: é mesmo apavorante. Estamos quase monotemáticos, só falamos da doença que começou na China e está se espalhando pelo mundo. Melhor se fosse apenas um roteiro de filme, pois o cinema já se ocupou do assunto várias vezes. Mas, infelizmente, não é.

Deixando o real para os cientistas, vamos ver como a ficção retratou o terrível inimigo que a gente nem vê a olho nu e mesmo assim pode dizimar populações. Vírus, epidemia, contágio, pandemia...tudo é matéria-prima quando a intenção é mexer com os nervos do público. Produtores, roteiristas e diretores usam e abusam do gosto da platéia por sentir medo.

Embora não morra de amores pelo tema, selecionei alguns de que gosto bastante. Deixei de fora os de epidemias que transformam as pessoas em zumbi. Mas há tantos outros que dá pra voltar a este argumento sombrio outras vezes. Só espero que sem inspiração na vida real!

Boa leitura, bons filmes.

Até a próxima semana.

(Brígida De Poli -Coluna Cine&Séries – Portal Making Of – 09/02/2020)

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Vai encarar ?

Senta que lá vem papo sério ! Precisamos continuar falando sobre o racismo, um assunto que não se esgota na intensa cobertura televisiva sobre a morte do homem negro assassinado por seguranças num supermercado, nem pelos ataques à vereadora negra eleita em Joinville. O Brasil é o segundo país com a maior população negra do mundo. Oitenta e seis milhões de brasileiros descendem de povos africanos. Só perdemos em número para a Nigéria.

Algum extraterrestre ou mesmo um estrangeiro desavisado ao ler  essa estatística pensaria que o Brasil é um bom lugar para negros viverem.  Refugiados do Haiti, Congo e Senegal escolheram nosso país com essa perspectiva. Chegando aqui se depararam com algo que insistimos em negar ao longo dos séculos: o preconceito racial.

Costumávamos varrer o racismo para baixo do tapete. "Até tenho uma amiga negra" , "fulano é negro de alma branca", ou" não tenho nada contra, só não gostaria que minha filha casasse com um negro" eram frases ditas com a maior naturalidade.

Gerações que nos antecederam tapavam o sol com a peneira e engavetavam um debate que só agora está na berlinda. Ele chega num momento em que se contrapõem a maior conscientização sobre o problema e a insatisfação de quem acha que é só mimimi ou um "caso importado", como declarou o vice-presidente, Hamilton Mourão.

É quase inacreditável que justo agora quando abriram as portas do inferno e hackers invadem lives de ativistas para usarem palavras de ódio, quando qualquer um se acha no direito de chamar o outro de "macaco", quando manifestações claras de racismo proliferam sem qualquer pudor, ainda haja a negação do preconceito.

Digo QUASE porque, infelizmente, estamos vivendo a era do negacionismo . Nega-se não só racismo, como o machismo, o aquecimento global, as queimadas, o desmatamento e até a doença  que já matou mais de 170 mil brasileiros.

Quando eu era criança e pensava enxergar fantasmas no escuro, fechava bem os olhos durante alguns minutos para eles desaparecerem. Nossos governantes têm fechado os olhos, mas tenho uma má notícia: nossos males são concretos. Não adianta fingir que não existem. As manifestações de ódio racial estão aí cotidianamente para quem tem um mínimo de informação. Sua negação é alimento para a violência contra os negros.

Não quero dar lição de moral a ninguém, mas precisamos admitir o racismo. É um assunto incômodo ? Sim, é, mas James Baldwin, escritor negro norte-americano, cujos livros me ensinaram muito sobre preconceito racial, resumiu numa frase o que estou tentando dizer: "você não consegue mudar o que não consegue encarar."

Vai encarar?

(Brígida De Poli- 29/11/2020)

 

 Parte II



POLI. As mulheres da minha vida. Insular, 2019










Sobre o escritor Gilberto Motta. Por Edna Domenica Merola

Contra capa Do Corpo ao corpus C omo já escrevi neste blog: " Ter contato com pessoas, no outono da vida, é por si só um privilégio. ...